Carta pública: Sete Motivos para Boicotar o ENADE

Neste domingo, dia 25 de Novembro de 2012, haverá a prova do Exame Nacional de Avaliação do Desempenho do Estudante.

Esta prova envolve estudantes dos primeiros e últimos semestres dos cursos de graduação, dentre os quais, em diversos estados, os cursos de Psicologia foram selecionados para compor o exame.

Este texto tentará expor, de forma resumida e simples, sete motivos para o boicote da prova do ENADE, seja este boicote por estudantes da psicologia ou outros cursos, público ou privado.

 

1 – O ENADE TEM UM CARATÉR PUNITIVO

O Exame segue a lógica do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (SINAES), que procura penalizar os cursos mal-avaliados. Um curso mal avaliado tem que assinar um termo de responsabilidade assinado pela instituição, que garante que o curso vai dar uma solução aos problemas que ela apresentou. Caso ela não consiga se superar, haverá cortes nos investimentos. Ora, mas se um curso apresenta problemas a lógica não deveria ser justamente a oposta, a de investimento?

Outra questão aqui é que o Estado não diz de que forma a superação dos problemas deve se dar. Isto dá margem para a justificativa da privatização do ensino superior e público, além de colocar o Estado como um observador-regulador da educação, e não enquanto gestor e financiador desta.

 

2 – O ENADE NÃO AVALIA OS PROBLEMAS A SEREM SUPERADOS

O ENADE centra sua avaliação no desempenho individual dos estudantes, considerando, assim, que os problemas da universidade são meramente curriculares. O ENADE não avalia o que está bom e o que está ruim de um modo mais amplos, o exame calcula apenas a média das provas para dizer qual o “conceito” do curso, se é um, dois, três, quatro ou cinco. E isso não faz diferença nenhuma pra quem quer descobrir as deficiências de cada curso e investir em resolvê-las,

Avaliação deveria ser pautada nos problemas que queremos superar, precisa captar onde estão faltando estrutura, materiais e outros recursos necessários, precisa apontar quais conteúdos indispensáveis estão ficando de fora, precisa colocar em discussão os métodos pedagógicos que precisam ser melhorados para a nossa formação profissional, precisa dizer o que está errado e o que pode ser melhor no rumo que os nossos cursos têm.

 

3 – O ENADE DESCONSIDERA AS PARTICULARIDADES REGIONAIS

Mesmo que orientado pela Lei de Diretrizes e Bases, que organiza de forma geral o ensino dos cursos de graduação, a prova do ENADE é única para todos os estudantes do Brasil inteiro. Significa dizer que avaliação desconsidera as particularidades sociais, políticas, econômicas e culturais entre as diversas regiões brasileiras. Entendemos que o ensino dos diferentes cursos se dá justamente de forma diferente e que a pluralidade e diversidade devem ser, além de respeitados, valorizados. Defendemos a construção de uma ciência atenta às necessidades específicas dos mais diversos contextos sociais e culturais que se diferenciam bastante entre estados e regiões do país,  que respeite as singularidades de cada local.  

 

4– FALTA DE AUTONOMIA

Aliada a desconsideração das particularidades regionais, existe a questão da falta de autonomia. Cada universidade deve ter o direito de avaliar seus problemas de acordo com suas próprias características, e isso tem muita pouca relevância no resultado final da avaliação da qual o ENADE faz parte. Não faz sentido que o MEC imponha às universidades como deve ser o conhecimento produzido nela, para que ela tenha qualidade. O MEC deveria respeitar a dinâmica de cada universidade, dar recursos para que essa possa resultar num ensino de qualidade, e avaliar onde está ruim para que mais recursos sejam investindo, resolvendo os problemas constatados.

 

5 – É REALIZADO UM RANQUEAMENTO DO ENSINO

O resultado da prova é utilizado para construir um conceito, que contribui para o se elencar um ranking das universidades. Este ranking pode ser utilizado para privilegiar os cursos e universidades com melhores resultados em detrimento dos cursos com menores resultados. A excelência é construída de forma excludente e punitiva. Entretanto, um curso sem um conceito não pode fazer parte do ranking.

Outro uso dado para esta classificação, principalmente nas universidades privadas, é para o marketing das instituições privadas, propagandeando suas notas em revistas e outdoors, em uma lógica de que a avaliação sirva apenas como garantia de promover o seu “produto”. Conceitos altos, ainda, são utilizados para justificar aumentos abusivos de mensalidade por instituições privadas. A educação como direito é deixado de lado e estimula-se uma concepção de educação como um bem de consumo.

 

5– O BOICOTE É UM ATO POLÍTICO

O boicote é um ato político. Boicotar significa não legitimar uma prova que não se refere à qualidade de ensino. Quem faz o ENADE tem sua formação negligenciada, pois ele não atesta a real avaliação que a comunidade universitária historicamente exige. Boicotar e deixar claro que está sendo realizado um boicote é uma forma de mostrar ao SINAIS que estamos descontentes com a forma punitiva e descontextual que o ensino superior está sendo avaliado e tratado. Além de que um curso sem uma classificação em um conceito não recebe punição nenhuma.

 

Boicotar o ENADE é uma forma de sinalizar insatisfação com todo o sistema de avaliação. Mas por mais que ele surja efeitos imediatos, a longo prazo não basta, e é por isso que é importante aproveitar este período de campanha de boicote, pra falar também sobre a importância de criarmos outras formas de avaliação. A luta não apenas contra o ENADE, mas também contra o SINAES. Mas é preciso ficar claro: o coração do SINAES é o ENADE! Por isto é importante se unir a outras instâncias e coletivos para construir um movimento de resistência.

 

7 – QUEM BOICOTA A PROVA NÃO É PUNIDO!!!

Quem comparece à prova, mas não a faz não é punido e ainda tem a oportunidade de deixar explicitada sua posição contrária a uma avaliação limítrofe. É falsa a notícia de que quem boicota a prova tem seu diploma retido, ou tem sua nota divulgada no mesmo ou qualquer outra forma de punição. Para obter a liberação basta comparecer a prova e preencher o cabeçalho do gabarito.

Ainda, os estudantes de Universidades Pagas não perdem suas eventuais bolsas PROUNI nem o FIES. Entretanto, quem estuda em um curso ainda não reconhecido pelo MEC pode trazer problemas à sua Universidade, boicotando o ENADE. O curso pode não ser reconhecido se não tiver nota.

 

COMO BOICOTAR O ENADE EM CINCO PASSOS SIMPLES:

1 – Compareça pontualmente ao local da prova.

2 – Assine a lista de presença. Cole na prova um adesivo ou escreva “Boicote ao ENADE! Por uma avaliação de verdade”.

3 – Preencha o cabeçalho do gabarito e entregue a prova em branco.

4 – Vá para a praia, para o cinema, se encontre com seus amigos ou simplesmente volte a dormir.

5 – Organize-se! Procure se integrar, fazer parte ou acompanhar algum coletivo que faça minimamente uma discussão sobre o ENADE e o SINAIS, e que se proponha a estar construindo um movimento de resistência.


Boicotemos, pois! Em defesa da qualidade da nossa educação!

 

Fontes:

http://www.inf.ufpr.br/tla06/enade/conep.pdf

http://capufpr.wordpress.com/2009/09/23/material-da-conep-sobre-o-enade/

http://artificiosocialista.blogspot.com.br/2012/08/enade-qual-o-sentido-em-nao-boicotar.html

http://artificiosocialista.blogspot.com.br/2012/10/enade-buscar-um-outro-caminho-e.html

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